quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Componentes da descrição lingüística

Tomando como base a tradição ocidental, pode-se dizer que há três grandes tópicos de trabalho quando se analisa uma língua. São elas:

1) Os meios naturais de expressão (fala/escrita)

2) A Gramática, decomposta em:

2a.) A Morfologia (Apresenta um visão atomista, ou seja, considera as palavras independentemente das relações que estabelecem entre os termos da frase).
2b.) A Sintaxe (Diz respeito à combinação das palavras na frase, abordando também a quetão da ordem das palavras, fenômenos de Recção, dentre outras coisas).

3) O dicionário (Indica o(s) sentido(s) das palavras – Semântica)

No entanto, a distribuição supracitada foi alvo de críticas ao longo do desenvolvimento da Linguística no século XX. Argumentava-se que a palavra estaria perdendo o status de unidade significativa fundamental; o fato de se colocar no mesmo plano as regras/regularidades impostas pela língua e as opções que ela lhe propõe; a transferência da semântica para dicionário ocasionaria uma interpretação errônea sobre o que seria, de fato, uma descrição semântica, reduzindo-a, assim, a um trabalho apenas de caracterização das unidades significativas, não considerando as relações construídas entre os elementos/termos da língua.
Do ponto de vista da Glossemática, esta atenção exacerbada às palavras é inadmissível, pois considera que as unidades da língua devem ser analisadas enquanto termos que estabelecem relações (intrínsecas e extrínsecas), levando em conta as unidades de conteúdo e as unidades de expressão. Um outro argumento utilizado pelos glossemáticos é o de que a palavra é constituída de um conceito e de uma sequência  fonética.

Na próxima postagem, trataremos, de forma mais ampla, deste tipo de descrição lingüística, bem como, de outros conceitos envolvidos na temática proposta.      

sábado, 28 de agosto de 2010

Dança das abelhas: linguagem ou código?




No livro “Problemas de Lingüística Geral I”, Benveniste, lingüista francês, dedica um capítulo de sua obra para tratar da relação entre a comunicação animal e a linguagem humana. O autor traça uma clara diferença entre a “linguagem” das abelhas, estudada por Frish) e a linguagem humana.
Os estudos do zoólogo Karl Von Frisch mostram que as abelhas parecem deter algum tipo de comunicação peculiar. Essa hipótese é oriunda da observação de que quando uma abelha constata uma fonte de alimento, ela retorna à colméia realizando uma dança específica, que, por sua vez, envolve movimentos circulares tanto na vertical quanto na horizontal, em forma de oito, além de um movimento ritmado do abdome. Após a realização da dança, as abelhas espectadoras se dirigem à fonte de alimento sem a companhia daquela que lhes trouxe a mensagem.
Constatou-se que cada tipo de movimento representa aspectos distintos, como a distância, a direção e o tipo de alimento encontrado.
Diante deste fato, poderíamos atribuir uma linguagem ao sistema de comunicação das abelhas?
Segundo Benveniste, a "linguagem" das abelhas NÃO É LINGUAGEM no sentido em que:

  • não pede qualquer resposta, mas apenas um comportamento: não há interlocução, diálogo, não é reproduzível. (Ou seja: uma abelha que recebe uma mensagem não pode transmiti-la de novo e não funciona, como a linguagem humana, como substitutivo de uma experiência.);


  • refere-se sempre a um dado em particular (o alimento), sem dar margem ao leque infinito de enunciados e situações que a linguagem humana permite formular. Na linguagem humana, o símbolo não remete ao dado empírico e, dessa forma, ele é algo que interpreta o real;


  • Não pode ser decomposta;


  • É executada através de danças (não-vocal). (porém, o professor fez a seguinte ressalva: linguagem de surdo-mudo não é falada e é linguagem, deixemos esta discussão para outra postagem);
(...)
O caso da "linguagem" das abelhas é um exemplo que permite pensar os limites da linguagem dos animais em relação à linguagem humana. E outro lado imaterial, em que ocorre a comunicação de significados através da evocação de experiências ou acontecimentos.

Fontes:

FIORIN, José Luiz (org.). Introdução à lingüística: I. objetos teóricos. São Paulo: Contexto, 2002.

http://busca.unisul.br/pdf/57916_Angela.pdf


BENVENISTE, Emile. Problemas de Lingüística. Trad. Maria G. Novak, Maria L.Neri. 3 ed.
Campinas: Pontes, 1991.